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Para mim na feitura de uma pintura o que domina é, sobretudo, o processo de escrita a escolha da forma que evite não só a banalidade como erros de estilo.
A dor e o júbilo na criação da obra existem mas em tempos diferentes, a dor no momento da criação e o júbilo no fim da obra completa quando me apercebo que o quadro resultou, e funciona.
O que determina o que vai ser o objecto de arte a que me dedico é aquele momento em que ponho na tela os primeiros traços de tinta, a imagem, o ambiente ou o motivo que determina o seu desenvolvimento. Klee dizia que a pintura não restitui o visível, torna-o visível, Matisse nunca pintava as coisas mas as relações entre elas, dizia ele. Um e outro, tudo somado, definem, quanto a mim, aquilo a que posso chamar o limite sublime da arte.
O que interessa na pintura não é só criar um objecto por si mesmo desligado do autor, é ao contrário, o Eu está sempre presente na imagem produzida, há sempre um pouco de mim, mesmo quando o quadro nasce, como não pode deixar de ser, de circunstâncias de uma memória pessoal. É em certa medida um filho meu.
As tintas a colocar numa tela tem, sempre, o lugar concreto que é o seu, nos tubos e frascos. Mas numa tela os tons, as cores, a sua frequência, a sua cadência o seu lugar no espaço da tela, a orientação o estilo e a forma que elas proporcionam integra-se no resultado de um efeito de memória, cadência e ritmo que toda a obra transporta: por instantes para quem observa parece que se perde o sentido próprio, e está “livre” para receber qualquer outro sentido. A obra de arte transporta esse efeito: é o apreciador ou comprador de arte, que nas sucessivas “leituras” do mesmo quadro, pode fazer isso. Por isso um quadro nunca se esgota num sentido, ou numa interpretação.
Num quadro nunca é a redução do Eu mas um alargamento para os outros do que, a princípio pode nascer apenas de um. Assim uma obra deve integrar a expressão afectiva num enquadramento reflexivo, ou num espaço de meditação que anule a simples efusão sentimental.
(2002)
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